Agora não

Dez anos atrás eu estava sentado atrás de uma Mapex Venus vermelha em um palco escuro, e olhava para as costas de três amigos meus, cada um segurando um baixo ou uma guitarra.

Eu girava nervoso as baquetas nas mãos, eu suava, e o pé direito no pedal do bumbo tremia um pouco. Devo ter batido a cabeça no suporte do microfone atrás de mim pelo menos umas quatro vezes, e não sabia se minha voz ia funcionar quando eu precissasse fazer o backing. Na noite de sexta em 02/02/2007 a primeira luz de um holofote caiu sobre mim, eu levantei as mãos acima da cabeça, bati as baquetas quatro vezes – tremendo -, e toquei “Not Now”. Eu temi cada porrada no prato de ataque, a baqueta sair voando ou quebrar, a corda de alguém estourar, mas três minutos depois a música acabou e eu era o cara mais feliz do mundo.

Poucas vezes na vida eu tive coragem de encarar a platéia com a luz forte em cima de mim e fazer alguma coisa, e eu esquecia de que depois era só felicidade. Algumas baquetas quebram, às vezes até cair estante de prato acontece, mas no final é gostoso, vale a pena. Preciso sempre me lembrar disso, me empurrar pra frente, fazer alguma coisa. Não sei onde no caminho a música parou, mas bora lá recomeçar.

Come here, please hold my hand, Lord, now
Help me, I’m scared please show me how
To fight this, God has a master plan
And I guess I am in his demand

blink-182 – Not Now

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Sem celular

Meu celular quebrou há uns 2 meses. Esse período imposto de abstinência criou em mim um ódio feroz por gente que fica com o celular na mão. E é o tempo inteiro. Todos. Ninguém larga. Tá vendo TV, celular na mão. Vai comer, celular na mão. Vai dormir, pro banheiro, lavar louça, tá lá o celular. Inclusive eu também.

Já é óbvio que faz tempo que dependemos da tecnologia móvel.

E não vejo mal nisso. É nosso próximo passo evolutivo, certeza. Vamos todos virar luz e vagar o cosmos em ondas de informação compartilhada no melhor estilo “2001”, mas, até lá, por favor, enquanto não somos seres imateriais de pura energia e informação, converse com seu amiguinho de carne e osso que está aí perto.

Dê um beijo de boa noite antes de enviar um “boa noite” via Whatsapp nos seus grupos. Preste atenção na sua família, e, enquanto faz isso, jogue os celulares deles na parede também, porque de outro jeito você vai prestar atenção em gente usando o celular. E, por fim, lembre-se: se você se sente sozinho, a culpa é sua.

Update em 12/08/2015: comprei um celular. Preciso de um, no fim das contas, tenho uma filha e preciso estar disponível. Vamos ver se resisto às tentações.

Incubus – Warning

Quase pai

Meu pai foi um bom pai, no geral. Lembro das Fantas com coxinha no bar do lado do trabalho dele, das partidas de River Raid e Enduro juntos, dos filmes e séries (e de como eu tinha medo de Arquivo X, mas hoje adoro), dos conselhos e das histórias, da ajuda, do amor. Meu pai é o homem que eu queria ter sido e sei que nunca chegarei tão longe. Ele pode não saber, mas eu o idolatro.

Quero ser esse pai que viveu momentos legais, no fim da jornada.

Ainda não sei como me sinto, provavelmente só vou saber quando ela chegar e estiver aqui no meu colo. Não sei como agir nem o que fazer, e talvez nunca saiba de verdade, dando apenas o meu melhor. Não consigo organizar muito bem as coisas e os pensamentos porque não sei por onde começar, o que tem que ser feito e o que pode deixar pra depois. Não sei onde investir o dinheiro, e o que é besteira comprar. Perco-me em mim mesmo de vez em quando e esqueço que preciso apoiar a Jacque – desculpa, amor.

Sei que já amo minha filha, que quero ela perto; já tenho aquele impulso bobo de fazer tudo que posso e não posso por ela, de imaginar situações, planejar coisas. Também perco o sono e fico sem dormir pensando nas dificuldades e encrencas… e sinto a mãozinha apertando meus dedos. Quando eu chego em casa no fim do dia e “it’s been a hard day’s night” e minha esposa diz que ela começou a mexer quando ouviu minha voz eu sou o cara mais feliz do mundo por um tempo.

De leve e sutil, sem querer, tenho muito do meu pai. Sei que ela vai ter muito de mim (de nós, Jacque). Talvez a moça goste de vídeo-game e de RPG, rir de Monty Python, música, karate, ficção científica e literatura. São alguns dos momentos que pretendo ter com ela, e acho que o que importa são os momentos entre o começo e o fim que eu vou ter com minha filha. Quero esses momentos, essa vida, e eu já me preparei demais.

Ainda não sei ser pai. Não sei sentir o que um pai sente. Não sei o que um pai sente. Só sei que quero ser pai. Sem mistérios, tão simples quanto parece ser, sem garantias mas do jeito que quero.

Vem, Yayá.

(Essa música, canto e toco pra ela de vez em quando, e ela dá umas remexidas dentro da barriga que acho são sinais de que está gostando. =P)

Priscilla Ahn & Ashtar Command – Rosa

Tentativa e erro

Não sei se a grande programação da vida possui um limite na variável que define quantas chances temos, se todas as nossas decisões e escolhas sobre tal grupo de situações uma hora batem no limite e dali pra frente é o que é e pronto, mas 1) ainda não cheguei nesse limite, e 2) às vezes parece que sim, há um limite.

Mas o limite somos nós mesmos.
(E isso é muito mais assustador!)

Eu recentemente me vi bem perto do meu limite auto-imposto, e é aterrador acelerar de encontro ao muro e saber que quem não quer virar o volante sou eu. Quero correr, fazer tudo, conquistar tudo, mas, mais do que tomar decisões erradas, porque isso é bom (as decisões podem ser erradas, tomar decisões erradas não!), eu travo, fico olhando e pensando no que fazer sem realmente pensar no que fazer, sofrendo sobre como não consigo fazer. O que é um grande loop, já que não consigo porque penso que não consigo e perco o tempo… e enfim, você entendeu. Esse, imagino, deve ser o problema de se não todos, da maioria dos travados. Pensamos demais, fazemos de menos.

E há outro lado pior: o fazer por fazer, seguindo um fluxo do que é esperado que você faça. Na maioria das vezes o fluxo estanca no limite, também.

Pretendo mudar isso. Não sei se é fácil – não deve ser. Na verdade ainda nem sei por onde começar! – talvez comece por permitir-me. Há o alvo, mas acertar o alvo exige treino e conhecimento da arma.

Mesmo sabendo do limite, fosse fácil pessoas não ficariam ricas escrevendo livros sobre como deveria ser para pessoas que sabem como deveria ser.

Ashtar Command – Deadman’s Gun

Aniversário

Desde que minha esposa foi contagiada pelo amor à música (gosto de pensar que por mim) queremos criar algo juntos. Então ela me deu um ukulele de aniversário, um instrumento que eu sempre quis tocar mas sempre deixei para depois por conta do tempo, da faculdade, do trabalho, da guitarra e da bateria… É o som mais gostoso que eu já fiz, leve, tranquilo, sincero, emocional.

Quero minha vida daqui pra frente como uma música no ukulele.

Não tenho grandes filosofias para fazer no dia do meu aniversário, nem grandes reflexões sobre meus 27 anos até aqui. Faço-as todos os dias, como acho que deve ser. Comemoro mais um ano fechado vivo e vivendo (tem gente que só sobrevive e gente que só vegeta), que não foi exatamente como eu quis mas foi o melhor que eu poderia querer.

Tenho muita coisa que quis ter, e tenho capacidade para conquistar o resto que ainda quero. Tenho planos e ambições… Tenho a Jacqueline para fazer tudo comigo, e meus pais e irmãs apoiando meu caminho. Vivo confortavelmente, posso ajudar quem eu amo e está precisando, e tenho abraços peludos quentinhos e lambidas sinceras de amor quando eu chego em casa.

São 27 anos perfeitos em suas falhas… Tornei-me quem sou e eu gosto disso.


Beck – Say Goodbye

Razão e impulso

Sempre que alguém me diz “fiz o que o coração mandou” eu entendo que aquela pessoa é fraca em seu auto-controle. Oras, “coração” aí é na verdade impulso – tudo o que fazemos por impulso justificamos com emoções, com o coração. Impulso de querer algo que julgamos bom e nem sempre é, essa é a verdade. Mas… tão ruim quanto seguir apenas o coração é seguir apenas a razão – e bem mais chato.

Equilíbrio. Não separe razão e “coração”.

Acho lindo, na verdade, o ato de impulsividade que faz com que lutemos por algo. Mas… pouca coisa funciona por impulso. Se a pessoa age contra a própria preservação – que a razão mostra -, oras, o impulso não é bom. É como pular de uma ponte porque queremos a sensação de liberdade e a adrenalina e toda a emoção gostosa do momento, mas lá embaixo tudo acaba.

Também acho justo racionalizar as decisões da vida, pesar e pensar nos aspectos e consequências. Por si só parece que isso é limitador. Mas atenção: a razão não é limitadora. Ela apenas diz: “ei, psiu… use uma corda elástica amarrada em você antes de pular. Por segurança”.

Há uma expressão inglesa, white knuckles (o ato de cerrar os punhos até o sangue parar de circular), usada para denotar apreensão, tensão, medo… Cabe aqui. Relaxe, solte as mãos, encare as coisas sem desculpas. Talvez não seja tão ruim.


Ok Go – White Knuckles

Não há tentar

Eu acho bonito e inspirador essa coisa que muita gente faz de tentar e tentar e falhar mas ter tentado; ou conseguir finalmente e comemorar.

Mas não acredito nisso de tentar.

Vejo muita gente usando o “tentar” como desculpa para querer mudar sem mudar, ou não desistir de alguma obsessão que, se for pra analisar, não é positiva. E não é exagerar dizer que na maioria das vezes é só medo da mudança.

Mudar é necessário e bom, mesmo quando não parece – na maior parte das vezes.

O que eu entendo é que ou você faz, ou você não faz. Tentar é eufemismo de não fazer várias vezes. Ficar tentando não é uma opção… é ficar preso no limbo sem ter o que quer e sem superar a falha. Pare, analise, adapte e melhore, faça (talvez outra coisa).

Se você for o mesmo a mesma coisa acontece.

“Do, or do not. There is no try.”
– Yoda


Vampire Weekend – Unbelievers